Papinhas no mundo – Japão

Papinhas no Mundo

Esta semana é a vez de desvendar como os bebês e as crianças se alimentam no Japão. Será que comem muito arroz? Muito peixe cru? Quem conta os detalhes é a Herika Miyashiro, brasileira que mora no Japão. Ela tem duas filhas, de 5 e 3 anos, que nasceram por lá. Por mais brasileira que seja, Herika admite que não tem como fugir da alimentação japonesa com as meninas e as diferenças são marcantes, inclusive já na maternidade com vários dias de internação e uma dedicada atenção às orientações sobre aleitamento materno.  Espero que vocês curtam a viagem até o Oriente tanto quanto nós.

beijos,

ônica

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Vou contar um pouco de como as coisas funcionam no Japão. Pra começar, sou brasileira. Então, mesmo morando em outro país, é difícil abandonar certos hábitos culturais, como dar banana amassadinha ou raspar maçã com a colher.  Mas introduzi muitas coisas ‘japonesas’ como a sopinha de misso, o missoshiru, desde muito cedo na alimentação delas. Tive minhas duas filhas aqui e não sei direito como são as coisas no Brasil, apenas o que ouço das amigas, mas aqui é diferente desde o nascimento. Se é parto normal, ficamos internadas, em média, 5 dias, um pouco mais, um pouco menos dependendo da maternidade.  Fiz cesárea nas duas vezes e tinha que ficar 10 dias internada.  Esse longo tempo dentro da maternidade serve para ensinar as mães sobre amamentação e cuidados com o bebê e regular as horas das mamadas. As enfermeiras nos ensinam a amamentar, a segurar o bebê, a trocar fraldas, a dar banho.  Assistimos palestras todos os dias de como preparar uma mamadeira, de como massagear os seios para estimular a produção de leite, de como cuidar da higiene bucal do bebê, essas coisas.

Uma semana depois da alta, uma assistente social-enfermeira vai até a sua casa para dar orientações sobre o cuidado com os bebês e tirar dúvidas.  Além disso, tem as consultas pediátricas periódicas gratuitas: de 1 mês, de 4 meses, de 6 meses, de 10 meses e com 1, 2 e 3 anos.  Nessas consultas, o pediatra dá uma olhada geral na criança, um dentista vê os dentes e gengivas e as assistentes fazem o exame biométrico. Depois temos de conversar com uma assistente sobre o questionário que preenchemos (recebemos pelo correio).  Recebemos orientações de acordo com a análise que eles fazem da rotina da criança.  Quando a criança já está na fase de introduzir alimentos sólidos, ganhamos cartilhas com os alimentos adequados para cada fase, algumas receitas, além de ter que assistir uma palestra com uma nutricionista.

Todos os meses, o centro de saúde faz um exame biométrico onde ficam algumas orientadoras para quem quiser tirar dúvidas, mas é para quem quiser, não é obrigatório.

Eu recorri muito a sites brasileiros para ficar montando cardápios e me orientar quanto a alimentação, valores nutricionais, detectar possíveis alergias…  Apesar de saber ler japonês é inegável a facilidade de uma brasileira em ler textos em português, por isso acho que mesmo introduzindo algumas coisas da cultura local, o jeito que uma brasileira acaba criando os filhos no Japão ainda é o jeito brasileiro.  Claro que jamais imaginaria fazer um tofu steak no Brasil ou um gratinado de tofu com pão de forma em molho branco feito com leite de soja e okara (bagaço de soja).  Mas uma mãe japonesa nunca daria uma sopinha com caldinho de feijão para uma criança de 1 ano (aqui não tem feijão, não como o nosso).

Frutas são absurdamente caras, mas não impossíveis de serem compradas, as verduras da época são baratas, então para quem tem disponibilidade para preparar, pode oferecer uma alimentação bem saudável às crianças.  Eu parei de trabalhar quando engravidei e esse ano vou voltar a procurar trabalho porque minhas filhas vão começar a frequentar a pré-escola. Tive muito tempo para me dedicar a elas.  Infelizmente muitas mães precisam voltar a trabalhar logo e não dispõem de tanto tempo para preparar as refeições com calma, mesmo tendo tantas orientações.  A vida aqui é bem corrida.

Nos mercados e farmácias existem um sem número de produtos entre papinhas, pozinhos, bolachinhas, sucos, sopas que não são tão caros para ajudar as mães mais ocupadas.  Não vou mentir que nunca recorri a algumas dessas coisas. Em geral, minhas filhas não gostavam.

Minha mais velha tem 5 anos e a caçula está com 3 anos, e eu ainda estou na fase de ensinar a comer certas coisas.  Por sorte aqui tem muitos livros e revistas que ensinam a enfeitar os pratos, além dos inúmeros blogs com verdadeiras obras de arte para poder copiar.  E como é da cultura deles enfeitar as comidas, é possível encontrar cortadores e enfeites por preços bem acessíveis.

Dá uma olhadinha aqui http://bit.ly/eQfKNf, isso realmente estimula as crianças a comerem.

Passei a plantar tomates, berinjela, pepino, morango, couve, alface, vagens, cenoura, rabanetes, beterraba e mais algumas outras coisinhas em vasos (moro em casa e não em apartamento) espalhados ao redor da casa porque minha filha mais velha não come mais verduras. Ela sempre me ajuda a regar, a revolver a terra, a enterrar a semente e a colher.  Apesar de não gostar, ela experimenta as coisas que ajudou a plantar e assim tenho a esperança que, com o tempo, ela aprenda a gostar. Ou que pelo menos se acostume com o sabor das verduras e consiga gostar em um futuro bem próximo.  Acho que ela nota que o pai delas não come verduras/legumes/frutas. Por conta disso, a maioria das verduras e legumes vão camufladas nos pratos, como o inhame no feijão e a abóbora no curry, ou o pão de tofu, muffins de espinafre e por aí vai. A lista dos camuflados é muito grande.

Nossa, como eu falo, não?  Me empolguei, desculpe.  Espero ter conseguido ajudar.

Beijos!!!

Herika Miyashiro

Herika ajudou um montão. Foi super simpática e disponível para escrever o texto. Vocês encontram a Herika aqui http://herikamiya.blogspot.com/ e também aqui @herika


8 Comments

  1. Oi Jullie.

    Apesar de tdo mundo associar comida japonesa com sushis, sashimis, peixes crus e cia., na verdade não são pratos que se costuma comer no dia-a-dia, pois são caros.

    Para crianças especialmente, a recomendação das nutricionistas é de dar peixes ou frutos do mar sejam crus ou cozidos a partir de 2 anos. Se a mãe fizer muita questão, a partir de 1 ano e meio pode-se introduzir aos poucos, um sashimi de peixe ou lula. Mas o melhor é esperar que a criança complete 2 anos, que é quando o aparelho digestivo já está desenvolvido e a criança já mastiga bem a comida antes de engolir. As enzimas da saliva já começam o processo de digestão na boca e evitam o risco de uma intoxicação alimentar. Além do fato de crianças menores serem mais suscetíveis a diversas alergias.

    Agora com esse problema da radiação no mar, na escolinha da minha filha, que está com 3 anos, não dão frutos do mar crus nem para ela. Para a mais velha não tem problemas, mas elas preferem evitar dar para as crianças de qualquer idade.

    Beijos!

  2. Relato excelente da Hérika, fornece um excelente panorama sobre a alimentação dos pequenos por aqui. É uma mãe muito dedicada, que sabe mesclar o melhor de duas culturas (japonesa e brasileira) fornecendo uma boa educação às suas filhas.

    Parabéns, Hérika!

  3. Uia! Estou me sentindo muito importante agora com um artigo meu aqui ^^

    Patrícia e Mônica, obrigada pelo espaço cedido 😉

    Lia, em qualquer lugar do mundo, inclusive no Brasil, existem “regras” que prefiro chamar de orientações sobre o que seria saudável ou não ao bebê. Toda mãe sabe que não se deve deixar o bebê dormir no peito mas deixamos por, além de ser muito gostoso, é prático, não?

    Eles não são tão rigorosos assim, recebemos orientações, apenas isso. Já levei muita chamada por minhas filhas não dormirem no horário que eles acham ser o ideal, isto é, 21:00, mas o pai volta do serviço às 20:40 e sai antes que elas acordem, se não deixá-las acordadas até um pouco mais tarde só teremos momentos família apenas no domingo. Pra mim isso é muito pouco, elas sentem falta do pai e ele quer brincar um pouco com as filhas. E ninguém veio aqui pra confiscar ninguém porque o que eles prezam é o contato familiar acima de qualquer coisa e entendem a necessidade de ajustes na rotina de toda a família.

    Existe um padrão que eles nos mostram e tentamos cada um nos aproximarmos o possível, mas é impossível chegar à perfeição estabelecida, até porque perfeição não existe, não é mesmo?

    Talvez pela diferença cultural mesmo, no começo ouvia os conselhos como uma intromissão. Afinal, quem eram aquelas pessoas que não me conheciam para querer impor uma rotina na minha casa e me dizer como criar minha filha? Hoje entendo de forma diferente, as assistentes estão apenas fazendo o serviço delas que é orientar.

    Em idade escolar, as professoras vão à casa dos alunos para saber um pouco da rotina de cada aluno. Será intromissão ou será uma ajuda para o professor entender um pouco mais sobre as dificuldades e facilidades de cada um? Afinal o “clima” em casa interfere diretamente no rendimento escolar, não?

    São coisinhas que, se tivermos um coração mais receptivo, não nos ofende e podem nos ajudar de muitas formas. Porque filhos são uma bênção em nossa vida, nossa alegria e a razão de tudo o que fazemos, mas não é fácil criar e toda a ajuda é bem-vinda ^^

    Desculpe me alongar tanto, mas é um assunto extenso demais e não consigo ser sucinta X)

    Beijos!!!

  4. Muito legal essa série. gostei do apoio que as mães recebem no Japão, só tive um pouco a impressão que as mães têm menos flexibilidade pra agirem conforme suas convicções. Já pensou você falar pra assistente: “Sra., meu filho não tem rotina, mama em livre demanda, recebe muito colo e dorme no peito.” Será que o juizado confisca? 😉
    É uma sociedade muito rígida, e me pareceu por esse relato que a educação começa desde cedo.
    quanto às comidinhas de tofu e soja, me deram água na boca! Emília ama tofu! Vou tentar o Missô

    1. Oi, Lia.
      Caso esteja a fim, que tal fazer contato com a Herika para pegar as receitas do tofu steak entre outros e até do missoshiro? Acho que ela ficará super feliz com essa troca. Ela é muito querida e disponível para esse contato.
      Sobre a flexibilidade, tenho cá uma pontinha de desconfiança de eles têm espaço para essa conversa por terem construído uma sociedade que preza o respeito ao outro, as ideias e opiniões do outro. Também desconfio que deve rolar um espaço para diálogo (sobre livre demanda colo, dorme no peito) porque parece ser uma sociedade que preza o cuidado inicial entre mãe e filho. O assustador Nana Nenê não veio lá do oriente, apesar de eles serem bem rígidos. Isso é fato.

  5. Que legal este post. É muito bom conhecer outras culturas, ainda mais sob a visão de uma brasileira. também morava no exterior (Venezuela) quando minha Sophia era pequenininha, e apesar de a cultura lá ser muito parecida com a brasileira, é claro que não é igual estar vivendo aqui. Parabéns. Adorei o post.

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